Amor de rodoviária

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Viajar é algo que todo ser humano gosta de fazer. Não há quem diga que não gosta de viajar e, ainda que o faça, restringe as reclamações em referências do trajeto em si, raramente na experiência. Seja qual for o motivo da viagem: passeio, visita familiar, estudo, trabalho ou mesmo por puro lazer, sempre há o tesão de conhecer ou visitar um local diferente, longe da nossa realidade. Fato é que as pessoas sempre buscam algo que marque a viagem de uma forma especial, algo que a eternize positivamente na caixinha de recordações. E foi numa dessas viagens que eu registrei algo que até agora não pude esquecer.

Em todas as viagens, independente do veículo (carro, ônibus ou avião), eu sempre procuro uma janela para poder observar a paisagem. Gosto de olhar o caminho e a distância que se amplia conforme a estrada segue. A "vida igual" que fica para trás e o anseio de novidades que poderei encontrar em qualquer novo pedaço de chão que eu pise. Na última viagem do ano que passou, nem tive a chance de observar tudo como gosto, eram tantos amigos me acompanhando e falando dentro do ônibus, que pouco tempo sobrava para ficar quieto no meu canto - ainda que não fosse essa a minha intenção. As brincadeiras, as piadas, as companhias que oferecem diversão garantida, tudo isso num resumo de histórias que serão contadas (em diversas versões diferentes) antes, durante e depois que a reunião terminar, esse é o resumo de uma viagem entre amigos. O gosto de aventura que acaba por misturar-se ao das lembranças e das saudades que ficam guardadas com cada um. Melhor ainda quando esses "sabores" são interpelados por uma inebriante paixão. E foi no fim de uma dessas viagens que tudo aconteceu.

Enquanto aguardava o embarque para retornar para casa, me sentei junto ao meu grupo de amigos em frente ao guichê de passagens, onde havíamos acabado de retirar nossos bilhetes de embarque. Estava distraído, até um pouco cansado, mas não o suficiente para ignorar a sua chegada. Em um olhar conversei contigo e troquei informações e gestos que mil palavras não saberiam dizer. Pronto, o desafio estava lançado. Uma nova aventura estava por começar. Poucos minutos antes do embarque e eu precisava descobrir quem era você, de onde vinha, para onde ia e o que queria dizer com esse olhar que me observava de forma tão tênue e ao mesmo tempo convidativa e instigante. Meu coração disparou e as mãos e pernas perderam um pouco a noção de equilíbrio. Solicitei a ajuda dos amigos presentes. Havia quem dissesse que era coisa da minha cabeça, e também quem achasse ser o verdadeiro alvo desses olhares. Não soube o que fazer e pela primeira vez eu te perdi. 


Embarquei sem saber se te veria novamente, com uma sensação de que estava deixando algo para trás. Uma história, uma palavra que sequer foi dita. Ainda assim, tinha a estranha sensação de que aquele primeiro encontro não seria o último. Me despedi de você da janela, com o olhar de quem diz "até logo" enquanto o ônibus se afastava, te deixando para trás, sem saber de nada disso. 

Chegando na cidade de origem, meu sexto sentido alarmava para que eu não desistisse, e foi assim que te procurei nas plataformas de desembarque, na esperança de te encontrar novamente ali. Eu olhava para as escadas e para os ônibus encostados procurando, entre os rostos que desembarcavam, encontrar o teu... tão obstinado na minha caça, que nem reparei quando você passou por trás de mim e seguiu o seu caminho. Estava te perdendo pela segunda vez.

Desanimado e pouco esperançoso, percebi que não fazia sentido procurar alguém que eu nem sequer sabia pra onde estava indo. Foi então que me deparei com o improvável. Entre milhares de pessoas que circulavam pela rodoviária, enxerguei você, apenas você, como se o mundo tivesse parado de girar por alguns segundos, e um corredor inteiro se abrisse para que eu pudesse correr na sua direção - no mesmo instante em que eu perdia o fôlego e a coragem de te encarar novamente. Mas dessa vez eu não podia deixar você partir. Para minha sorte uma amiga e anjo da guarda soube o que fazer na hora certa, arrancando um papel com meu telefone das minhas mãos, deixando as malas dela para trás e correndo na sua direção. Um cupido sem asas. Você, sorrindo sem graça, pega o papel sem saber o que dizer. Apenas olha na direção para qual ela retorna e então, novamente, me vê. 


Sua mensagem me dizendo que gostaria de ter ganhado um beijo junto com o número de telefone ainda está guardada. E todos os dias fico olhando para o celular, esperando a ligação que me peça para voltar à rodoviária outra vez.

Um comentário:

  1. Mas é assim mesmo, né?!
    A gente nunca sabe o que vai acontecer tampouco como. Mas acaba acontecendo e o resto é resto. Às vezes, o que importante mesmo é o encontro e não a continuação.
    Talvez fosse só isso :D

    Lindão!

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